Felipe Gustavo Koch Buttelli

  1. No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
  2. Ele estava no princípio com Deus.
  3. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.
  4. A vida estava nele e a vida era a luz dos homens.
  5. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. […] 14 E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai. João 1.1-5,14

O evangelho de João não é comumente utilizado nesta época de Advento. Diferente dos evangelhos de Lucas, em especial, e de Mateus, João não apresenta uma história do natal, como costumamos ouvir neste tempo santo para a tradição cristã. O autor do Evangelho de João tinha outra preocupação teológica. Enquanto Lucas tinha interesse em apresentar os dados históricos para demonstrar a credibilidade do testemunho acerca do nascimento do Messias, João pretendia oferecer uma explicação teológica para questionamentos sobre a natureza do filho de Deus, anunciado pelos profetas e reconhecido pelas pessoas Cristãs como sendo aquele pequeno Jesus nascido em Belém.

João, o evangelista, escreveu seu Evangelho em um contexto de influência de um pensamento chamado gnóstico. O gnosticismo, grosso modo, acreditava que o conhecimento, o pensamento era a única via de salvação, caminho de encontro com Deus. Esta corrente de pensamento, que, de certo modo, ainda hoje manifesta suas influências nas religiões esotéricas, assim como o platonismo, pensavam que o mundo material, o mundo real que podemos ver e perceber é uma versão deturpada da perfeição, do mundo ideal. E você pode perguntar: e qual o propósito de toda esta filosofia para falar do natal? Ah, aqui chegamos! Os contemporâneos do evangelista João, influenciados pelo gnosticismo, não acreditavam que a divindade poderia “encarnar-se” neste mundo. Jesus não poderia ser a revelação, a manifestação verdadeira de Deus, porque Deus jamais poderia ser reconhecido em um mundo tão imperfeito. João faz uma crítica a este “dualismo” na compreensão da natureza de Cristo. Jesus Cristo é plenamente Deus e plenamente humano, ao mesmo tempo!

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O Verbo eterno, logos de Deus, a Palavra de Deus, tão valorizada pelo gnosticismo, tornou-se carne! Habitou entre nós, esteve aqui conosco, viveu a humanidade plenamente, conheceu nossa vida, se solidarizou com as limitações desta nossa vida imperfeita. “Encarnou-se”. A sabedoria de Deus, que criou todas as coisas, a luz de Deus que desde sempre dissipou todo tipo de trevas, a Palavra de Deus que criou o mundo e tudo que existe, tornou-se carne. Que significado pode ter para nós refletirmos sobre esta decisão de Deus? Afinal de contas, Deus decidiu revelar-se, deixar-se conhecer por nós.

Sabemos que no judaísmo – influência que se estendeu até o Islamismo – Deus não se deixava ver, nem permitia fazer imagens de si, tampouco falar seu nome. Vejam o diálogo de Moisés com Deus – aquele que lhe havia dado os Mandamentos no topo do Monte Sinai:

“Então, ele disse: Rogo-te que me mostres a tua glória. 19 Respondeu-lhe: Farei passar toda a minha bondade diante de ti e te proclamarei o nome do SENHOR; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer. 20 E acrescentou: Não me poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá.” Êxodo 33. 18b-20

Moisés queria ver a Glória de Deus! Vê-lo ou vê-la em seu esplendor é algo tão grandioso e difícil de ser apreendido por um ser humano. Ninguém sobrevive a este encontro. Não há vida na qual a grandiosa glória de Deus possa se expressar. Por isso, João afirma com clareza, conhecendo todo testemunho bíblico acerca de Moisés: “e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai”. Jesus Cristo é a manifestação da Glória de Deus, de modo que agora podemos conhecê-lo. Este é o grande milagre do Natal. E, de fato, a grande diferença da fé cristã em relação a muitas outras religiões: Deus não é mais transcendente, não está mais além dos limites da nossa percepção! Ele ou ela é imanente, ou seja, está presente no nosso mundo. Veio ficar conosco em solidariedade. Por misericórdia, divinizou a vida a ponto de nos prometer afastar-nos do pecado e de toda imperfeição.

A grande surpresa que ocorre no Natal cristão está justamente no lugar, no tempo e nas contingências sociais em que Emanuel – Deus conosco – decidiu revelar-se. Jesus revelou-se no contexto de marginalidade e de exclusão social. Enquanto profetas e sábios esperavam um grande Rei, poderoso e deitado “em berço esplêndido”, Jesus nasceu num potreiro, sujo e escuro em situação degradante, no frio inverno de Belém, nascido de uma jovem que não vivia em um casamento formalizado, em uma família disfuncional. Jesus, um árabe de pele escura, filho de trabalhador, perseguido pelos militares como uma ameaça política desde seu nascimento, tanto que sua família precisou fugir ao Egito. Jesus, um agitador religioso e político, que subverteu a ordem das coisas. Andou com prostitutas e as acolheu em seu grupo, comia e bebia com pecadores e amava a eles todos, mesmo sabendo das suas limitações. Jesus, que odiava a hipocrisia e a falsa moral, questionava aqueles que achavam que eram donos das leis e proprietários da graça de Deus. Desmascarava todo falso moralismo daqueles que viviam para o sábado e não deixava que o sábado pudesse servir às necessidades mais básicas da nossa vida: comer, beber, amar.

Pensar sobre a maravilha da “encarnação do verbo” em Jesus, o nazareno, significa reconhecer que Deus se manifesta naquilo tudo que é odiado, considerado improvável ou impossível lugar para a revelação de Deus. Jesus, em sua revelação naquilo que é descartado, tratado com preconceito, com medo, em sua revelação na periferia, junto aos condenados e às condenadas, não cansa de nos chocar, nos desinstalar, chacoalhar tudo que esperamos acerca de Deus. A verdade é que a manifestação da glória de Deus no unigênito do Pai nos frustrou. Frustrou, sim, e mais do que isso: gerou revolta e não aceitação. “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”, lembra João no versículo 11. Assim também é hoje!

Exemplo que me levou a refletir sobre isso foi a polêmica destas últimas semanas. Sobre a revolta e escândalo de parcela dos cristãos que se sentiu ofendida por um programa de humor que descreveu Jesus como um homossexual indisposto a assumir seu ministério. Não vou querer explorar muito esta polêmica. Apenas dizer o seguinte: Se nós, pessoas cristãs, não podemos reconhecer que Jesus poderia ter sido um homossexual – num dos países que mais mata homossexuais no mundo -, se não conseguimos aceitar que Jesus pudesse ser uma mulher negra, um indígena assassinado ao defender suas terras, um jovem negro favelado assassinado pela polícia injustamente, então não entendemos nada sobre a revelação da glória de Deus, o verbo que se fez carne. É evidente que estes cristãos revoltados com a sátira humorística que apresenta Jesus como homossexual, não entenderam que Deus se humaniza e vive nas condições de vida que nós também vivemos: alguns são brancos, outros pretos, uns gordos outros magros, alguns são ricos, outros pobres, algumas pessoas são heterossexuais, outras são homossexuais, algumas pessoas nasceram com algum tipo de deficiência, outras desenvolveram doenças mentais, somos todos pessoas diferentes e não há quem seja “um modelo mais adequado” para a revelação de Deus. Justamente o contrário, Deus quis revelar-se naquilo que considerávamos mais improvável e indigno. Não seriam os homossexuais na nossa sociedade patriarcal e machista justamente aqueles marginalizados, odiados pelo moralismo e legalismo religioso? Aqueles que apontam os dedos e gritam: Blasfêmia!, estes são justamente os fariseus de nosso tempo.

Que este Deus glorioso que se dá a revelar no tempo de Natal possa revelar-se a você na sua fraqueza, na sua fragilidade, na sua dor e no seu sofrimento. Ali onde você se considera mais indigno, mais feio aos olhos do mundo, ali onde você se esconde, ali onde sua vida pulsa. Que esta mensagem de natal possa sensibilizar seu coração, seus olhos e suas mãos para acolher a presença deste Deus conosco – Emanuel – no olhar solidário e misericordioso para todas aquelas pessoas que estão à margem, rejeitadas, violentadas e abandonadas.

UM FELIZ NATAL!

Por Dr. Felipe Gustavo Koch Buttelli
Pastor candidato na Igreja Evangélica de Confissão Luterana em Balneário Camboriú