Por Caroline Cezar

É muito agradável a lembrança que tenho de natais na casa da minha avó materna, -que morava a 1500 km de distância-, a gente viajava pra lá todos fins de ano e ficava por dias curtindo aquele clima de fazer nada em volta da comida. Ela tinha um pátio que na memória me parece enorme, um corredor de parreiras de uva e tatus bolinha e uma mesa lá fora forrada de plástico onde comíamos melancias inteiras, as cascas virando dentaduras feitas por meu avô, que ficava sentado com um mata-moscas dizendo “miiica” -um tom puxado pro alemão- e espantando os insetos,

Reinava uma simplicidade absoluta e aquilo me formou. Meus gostos, meu amor por pé no chão e dar um jeito com o que tem. Tudo artesanal, funcional, as soluções muito feitas pelas próprias mãos, estantes, toalhas, cortinas, fechos de porta, cabides.

Minha avó costurava, tricotava, crochetava, fazia biscoito, pão, massa. Meu avô, sapateiro de profissão, preparava garrafadas de ervas – como era bom bater a canela pra sentir aquele calor do schnaps e o cheiro de álcool subindo. Meu amor pela alquimia muito ligado aquela estante de madeira, vidros e vidros de geleias artesanais, sucos concentrados, tudo enfeitado com um paninho na tampa e muito açúcar, porque açúcar e sal mais que tempero, são conservantes.

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Da mesa de Natal me lembro dos pastéis, pilhas de pastéis de carne com ovo, pepinos em conservas deliciosamente azedas feitas por minha avó, cervejas de garrafa, pão caseiro, algum bicho que voa, assado inteiro, e torta de amendoim: enorme, consistente, crocante. E copos com decalques de bonecas, cada qual pintado com nossos nomes de netas e cheios de uma groselha rosa e melada.