Marlise Schneider Cezar

Lembro até dos cheiros do Natal. Uma data que aprendi a respeitar desde que me conheço por gente. Coisas de tradição, heranças de família, mas sempre curti. Os tempos vão passando e as lembranças vão se somando, mas estão sempre presentes. Por isso o Natal que é uma data de alegria, como todo nascimento é, mexe com o sentimento da tristeza também…saudades e lembranças é bom, muito bom, mas sabem entristecer também…

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Nos meus tempos de criança criada na natureza, o Natal tinha cheiros bons de lembrar…uns dias antes, vó, mãe e tias faziam as bolachinhas de Natal…um cheiro maravilhoso que invadia toda a casa…mas elas pintavam só de noite, quando as crianças já tinham ido dormir…a pintura fazia parte das surpresas de Natal!

Na véspera, o pinheiro plantado no jardim da casa, era cortado pelo pai, meu avô, tios e quem estivesse por perto, ajudavam no corte e no transporte até a sala…o ‘machucado’ do corte também recebia um curativo, não lembro direito, cal talvez, para que brotassem saudáveis as novas mudas para o Natal do ano seguinte…lá dentro da sala, aquele cheiro gostoso de árvore, de pinha, de pinheiro (hoje dá pra comprar esses aromas e borrifar pela casa, mas não é o mesmo cheiro).

Depois entravam em cena, as mulheres da casa, vó, mãe, tias, todo mundo ajudando a decorar o pinheiro com velas, bolas de vidro, algodão e cordões prateados. Nada de luzes artificiais. E o presépio, com ‘barba-de-pau’, cheiro de natureza de novo presente…palha de estrebaria e por aí vai…e ainda não falei dos cheiros de comida, tudo feito em casa, desde pepinos em conserva em potes de cerâmica protegidos por folhas da parreira, as cucas maravilhosas da vó até o lombinho ‘criado’ na casa dos avós. Ah e aquele sagu deliciosamente cheiroso…Cheiros de saudades!

Os presentes também eram diferentes, simples, criativos. Quando tinha 7 anos escrevi na cartinha ao Noel que queria uma boneca de verdade (?) e bem grande. No dia do Natal, vi minha cadeirinha de balanço parada ao lado da árvore e coberta com uma manta, só apareciam os pés da boneca com aquele sapatinho vermelho de bebê…nossa, era a minha realização…lembro da demora de levantar aquela manta….e depois lembro da decepção quando finalmente ‘des-cobriram’ a boneca…não era de verdade…era uma boneca grande, do meu tamanho, de pano, com cabelos amarelos de lã e sapatinhos de verdade, de couro, de criança mesmo, vermelhos…a boneca foi feita pela minha vó e pela minha mãe. Chorei muito. Não era o que esperava. Mas quando fui dormir minha mãe levou a boneca para dormir comigo e disse: “a boneca foi feita com todo o amor do mundo só para ti, nem sempre na vida a gente ganha tudo o que quer”. Eu dormi. No dia seguinte, acordei, abracei e batizei meu presente de ‘Margarida’ e fomos felizes por muitos e muitos anos. Até hoje lembro: a lição que recebi junto com minha boneca de pano foi o maior presente que recebi na minha vida. Aprendi a respeitar e ser feliz com o que tenho. E por isso todos os natais eu agradeço.

Agradeço pelas lembranças dos cheiros de Natal, das reuniões de família, da celebração em casa, na igreja, da Margarida…agradeço pelas lembranças desses natais que não voltam mais, porque os ciclos se renovam e hoje sinto saudades de tantos ‘meus’ que se foram…mas agradeço pelos novos ciclos que se formaram, nossa família, filhos, netos, nossos amigos…e agradeço mais do que tudo a quem veio nos abençoar, o menino Jesus, que hoje já colocam em xeque, se foi mesmo menino, ou se foi menina, se foi homossexual, pobre, branco, negro, índio… nada disso interessa, eu agradeço todos os dias por esta vinda, por este nascimento!

Marlise e Madu

 

Marlise e Cora

Desejando um Feliz Natal e tentando manter um pouquinho dos cheiros de infância, através das bolachinhas que minhas netas Madu e Cora ajudaram a fazer. Obrigado por tudo isso!

Marlise Schneider Cezar é jornalista e editora chefe do Jornal Página 3